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Mostrando postagens com marcador Literatura Portuguesa. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira

Aquela Casa Triste

Camilo Castelo Branco


I
A casa grande das quinze janelas branqueja no espinhaço do monte.
As janelas fecharam-se há seis meses, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.

A sepultura do Africano, que chegava ao cemitério quando a filha expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos funerais do pai.


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domingo

A Bruxa e o Caldeirão

José Leon Machado

A Bruxa e o Caldeirão é uma pequena história infantil escrita por José Leon Machado e com belas ilustrações de Alexandre Bandeira Rodrigues, e que conta a história de uma bruxa e seu caldeirão que um dia ficou com um pequeno buraco que deixava sair a água e apagar o fogo.

É uma linda história para contar em família.


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terça-feira

Do Grotesco e do Sublime

Victor Hugo


Obra destinada ao estudioso da literatura e das artes, este Prefácio, na esmerada tradução anotada de Célia Berrettini, constitui uma exposição dinâmica e pormenorizada da estética romântica. Com seu estilo vigoroso e exuberante, o jovem Hugo nos pinta um quadro vivo das tendências e controvérsias da época, que iriam minar pela base os dogmas clássicos e desencadear uma das mais importantes revoluções da história da arte e do pensamento estético, cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. À medida que acompanha a apaixonada argumentação do autor, o leitor vai-se impregnando da atmosfera intelectual que reinava na Europa em princípios do século XIX, o que lhe permite compreender em profundidade o significado integral do movimento romântico. 



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sábado

Noções elementares de archeologia - Joaquim Possidónio

INTRODUCÇÃO

I

Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o nome, composto de dois vocabulos seus: archaios, que quer dizer antigo, e logos discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao conhecimento do viver dos povos da antiguidade.


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quinta-feira

Gil Vicente - Livro Auto da Barca do Inferno

AUTO DA BARCA DO INFERNO

Gil Vicente

Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome.

Começa a declaração e argumento da obra.
Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.



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José Maria Eça de Queirós - Livro A Cidade e as Serras

I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.

No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando pôr e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei d.Dinis. A sua Quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, pôr cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro.



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José Saramago - Livro Este Mundo da Injustiça Globalizada

Este Mundo da Injustiça Globalizada

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.


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Pero Vaz de Caminha - Livro A Carta

A Carta
Pero Vaz de Caminha

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a
notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de
também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem
contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para
aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não
saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:
E digo quê:

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito
mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos
todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às
dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau,
segundo o dito de Pero Escolar, piloto.



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Luís Vaz de Camões - Livro Os Lusíadas


CANTO I

1

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


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quarta-feira

Livro Poemas em Inglês



Fernando Pessoa


EPITHALAMIUM
I

Set ope all shutters, that the day come in
Abram-se as janelas e que entre o dia
Like a sea or a din!
Como um mar de ruído!
Let not a nook of useless shade compel
Nem reste um canto de vã sombra a compelir

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Fernando Pessoa - Livro O Banqueiro Anarquista

O Banqueiro Anarquista
Fernando Pessoa


Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande
comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que
fora amortecendo, jazia morta entra nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me
de uma idéia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.

- É verdade: disseram-me há dias que V. em tempos foi anarquista...


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Fernando Pessoa - Livro Mensagem

Fernando Pessoa
Livro Mensagem


OS CAMPOS

PRIMEIRO / O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

SEGUNDO / O DAS QUINAS

Os Deuses vendem quando dão.
Comprase a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que Ihe basta
O bastante de Ihe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.


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Fernando Pessoa - Livro Poesias Inéditas

Árvore Verde

Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
'Stando acordado !
Também em mim enverdecer
Em folhas dado !

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma !
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava !

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro ? Quem dera !
Se eu nunca soube
O que ele era.


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Fernando Pessoa - Livro Poemas de Fernando Pessoa

Vendaval
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu penssamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!


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Fernando Pessoa - Livro Poemas Inconjuntos

A Criança

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.


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Fernando Pessoa - Livro O Pastor Amoroso

II

Está alta no céu a lua e é primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores,
Isso será uma alegria e uma novidade para mim.


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Fernando Pessoa - Livro O Guardador de Rebanhos

I 

Eu Nunca Guardei Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

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Fernando Pessoa - Livro O Eu profundo e os outros Eus

O MARINHEIRO
A CARLOS FRANCO
Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto
vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um
caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos.
À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única
janela, alta e estreita, dando para onde só se vê. entre dois montes
longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada
em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita.
As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto vago de luar.

PRIMEIRA VELADORA. - Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA. - Não se podia ouvir. Não há relógio aqui perto.
Dentro em pouco deve ser dia.
.............

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Fernando Pessoa - Livro -Do Livro do Desassossego

9.

"Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e
desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por
fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.

E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo
andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte,
que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida

sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim,
esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos
os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."

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Fernando Pessoa - Livro Cancioneiro

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

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